domingo, 26 de fevereiro de 2012

Será mesmo saudade?

         Certa vez um bom amigo escreveu que a saudade é um sentimento que atinge àqueles que se percebem perdendo pedaços queridos de seu ser; que vêm seus territórios existenciais e afetivos se esboroarem e serem tragados pelo tempo. A estes significados acrescento outros. Saudade, sentimento danado que deixa o coração apertado, angustiado, melancólico pela falta de. Falta de algo, de alguém, de alguma coisa. Mas não de qualquer coisa, de qualquer algo ou de um simples alguém. Mas das coisas que marcam  nosso corpo como cicatrizes, de algo que nos toca a alma e adensa o peito e o espírito, de alguém com quem compartilhamos experiências marcantes, em relação a quem nutrimos os maiores desejos e os melhores sentimentos.
        Saudade, sentimento arretado de quem se quer sempre colado, agarrado no outro. Saudade, sentimento egoísta de quem não quer perder, de quem não quer dividir, compartilhar, de quem quer apenas perto de sí; sentimento de quem não quer se distanciar mesmo sabendo que a perda, o distanciamento, o compartilhamento, a partida, a ida sem volta é para o bem próprio ou do outro. 
        Saudade, sentimento safado de quem quer dizer sempre: não vá, volte, fique aqui, pois não permito sua partida; vontade de dizer não quero mais, acabou a brincadeira. Saudade, sentimento dúbio que expressa um gostar descabido de querer estar perto, sempre perto mesmo quando se está distante. Um gostar que surge pela falta, pela distância, pela relutância em não se perder, brigando, lutando contra a falta e a distância, contra a possibilidade de perda, mesmo quando nada se perde e tudo se ganha. 
      Saudade, sentimento que se sente quando se tem laços de pertencimento, de reconhecimento, de identificação. Saudade de coisas que não voltam mais, de lugares que não são mais os mesmos, de tempos que agora são outros e que o tempo não tráz uma vez mais. Mas, sobretudo, saudade de pessoas. De pessoas marcantes, daquelas com as quais dividimos tanto nossos melhores quanto nossos piores dias e momentos, com as quais compartilhamos nossas melhores experiências, das mais intimas às mais públicas, com as quais experimentamos nossos desejos mais ardentes e reservados. 
         Saudade, sentimento bom, mas que quase ninguém quer sentir. Saudade que sinto sem querer, saudade que aperta o peito e contrai a alma, que angustia por estar longe, por se sentir perdendo ao mesmo tempo em que alegra-nos, por nos fazer humanos, demasiado humanos. Humanos no gostar do outro, no querer o outro como parte de sí. Que se alegra ao tê-lo de volta, ao vê-lo voltar e matar a saudade, para que ela possa reviver na próxima partida.

Ronaldinho Gaúcho: metáfora da Seleção e do futebol brasileiro.

        Acompanho futebol a cerca de 20 anos. Na maioria deles com um bom discernimento e certa criticidade em relação ao esporte bretão e ao que ele representa para nossa sociedade. E ao longo destes 20 anos Ronaldinho Gaúcho foi, talvez, o jogador mais talentoso, brilhante, genial que ví jogar, aquele que melhor expressou e simbolizou o futebol brasileiro, ontem e hoje. E olhe que ao longo destes 20 anos vi outros craques jogando e atuando: Um Romário (genial e mortal de fronte para o gol), Zidane (clássico, seco, elegante e objetivo), Rivaldo (Elegância e objetividade nas suas pernas tortas, sobretudo na canhota), Ronaldo (fenômeno de mídia, de marketing e de craque, o primeiro craque de estrelato mundial dos novos tempos do futebol, um divisor de águas no marketing futebolítico), Messi (Gênio e talento de mesmo potencial que o Gaúcho, sabe aproveitá-lo sem estrelismos e o está aproveitando até o seu limite, se é que há limite para tal talento). Mesmo diante destes nomes, Ronaldinho Gaúcho no seus auge, em especial no período em que ele esteve no Barcelona, de 2003 a 2006, antes da Copa do Mundo daquele ano, foi, para mim, o melhor e mais completo de todos eles, em todos os quesitos. Indiscutível, mágico. Um potencial sem limites ou com limites que ultrapassavam em muito o possível.
             Ronaldinho Gaúcho não era um craque, um gênio produzido apenas pelo marketing esportivo ou pela mídia como em grande medida se tornou o seu homônimo mais velho. Ele era um gênio sobretudo pelo que fazia dentro de campo, transformando o impossível em possível, o improvável em feito. Ao ponto de seus fãs acreditarem que de seus pés e pelos seus pés até mesmo o impensável se tornaria possível (como chutar a bola na trave quatro vezes seguidas, de quase do meio campo, sem que ela caísse e sempre retornando, milimétrica a seu pé) como um milagre, uma mágica. Como mágico era o seu futebol. Por essas e por outras, o Gaúcho naquele momento era maior e melhor do que Messi é hoje. O Gaúcho parecia torcer a realidade, a transformar com seus dribles, toques, passes, assistências, com os seus gols. Sobretudo, porque a genialidade do Gaúcho se fez em um Barcelona que não era tão genial e perfeito quanto o de hoje. Mas, em um Barcelona em que Ronaldinho lhe dava a perfeição sendo, muitas vezes, mais de 50 % do time, de um time que embora não se equipare com o de hoje, não deixava muito a desejar a este.
              Foi neste Barcelona que Ronaldinho Gaúcho se transformou no melhor jogador que vi em campo. Um gênio, um mágico, um artista da bola, com um potencial a desenvolver que não sabíamos o seu limite e, certamente, nunca mais saberemos. Simplesmente porque ele parou. Mesmo continuando a jogar, ele parou. Como numa mágica o artista sumiu e não voltou mais, nunca mais foi como antes. Declinou, tanto como atleta quanto como artista. Um artista, que a despeito de muitos, parece ter acreditado, muito cedo, já ter construído a sua obra prima e dali por diante não querer mais construir algo tão brilhante, tão reluzente, tão perfeito, tão mágico. O Ronaldinho gênio foi meteórico.
          Depois de 2006, Ronaldinho parou. Passou a viver  tão somente do nome e dos seus dividendos simbólicos e aconômicos. Deixou de ser um jogador gênial para viver apenas do nome e da mágica gerada, de fora, em torno dele. Tornou-se, de uma hora para outra, um jogador comum, burocrático, preguiçoso, com raríssimos lampejos de genialidade, de futebol arte. Tornou-se uma estrela lunar, que o brilho não emana mais de sí mesmo, mas das projeções de glamour e estrelato que o marketing depositam no seu nome. Por isso, cada vez mais, ele expressa um brilho fosco, emprestado, forçado, inventado e conservado pela mídia e pelo marketing, alimentado pelos interesses financeiros em torno da marca R10. Abandonou o brilho próprio produzido dentro dos campos e gramados mundiais pelo brilho não tão glamouroso das noitadas, das baladas, dos flashs, das páginas de revista de fofoca. Fez da sua carreira, com a ajuda de seu irmão e empresário, Assis, um balcão de negócios. Burocratizou seu futebol e mercantilizou a sua carreira. Deixou de ser um artista para se transformar num mero operário, num mero empregado - bem remunerado - do futebol empresa.
           Mas, Ronaldinho não construiu essa trajetória sozinho ou a parte daquilo que se passa com o futebol brasileiro como um todo. Não. Sua trajetória em grande medida parece se cruzar com  a própria trajetória do futebol brasileiro e, em especial, da Seleção Brasileira nos últimos 10 ou 15 anos. Sua trajetória é em grande medida a metáfora mais bem acabada de nosso futebol. Explico. Por tudo que já fez e proporcionou nos campos, Ronaldinho Gaúcho é um dos símbolos maiores daquilo que se define como futebol arte, alegre, ousado, criativo, vencedor, mágico. É simbolo de reconhecimento, de sucesso derivado de tudo aquilo que fez dentro de campo. R10 é também uma grande marca do marketing esportivo e uma estrela midiática. É sinônimo de retorno financeiro, de geração de recursos e dividendos econômicos. O mesmo também se pode dizer da Seleção Brasileira e, por extensão, do futebol brasileiro. Símbolo de futebol arte, de magia, de ousadia, de futebol alegre e vencedor. Mas que também se transformou em marca, em produto de marketing e da mídia a serviço de interesses comerciais excusos, como os do Presidente da CBF e os da GLOBO. A Seleção Brasileira foi transformada pelo Sr. Ricardo Teixeira numa marca, numa indústria de fabricação e venda de jogadores, num grande balcão de negócios extremamente lucrativos para ele e seus apaniguados. 
            O Ronaldinho é o espelho individualizado da seleção e das práticas que a conduzem, e o Assis é o seu Teixeira. Neste processo tanto ele quanto a Seleção foram se burocratizando, tornando-se mercadoria vendável a qualquer alto preço, a serviço dos interesses de patrocinadores e empresários e quase nunca a serviço do bom futebol. Mercadorias vendidas muito mais pelo nome que construíram anos atrás do que pelo que vem desempenhando hodiernamente dentro de campo. Um nome e uma imagem que a cada nova atuação só faz se esboroar, a medida que não correspondem mais, sequer, a 10% daquilo que é prometido no momento da venda ou daquilo que um dia já foram, do que podem ou do potencial que têm ou tiveram. Vivem muito mais da badalação em torno de seus nomes e marcas e do que um dia representaram do que propriamente daquilo que vem demonstrando efetivamente dentro de campo. Só uma mídia sequiosa de ver seus interesses e conveniências corroborados é que ainda lhe fazem coro e promovem o aplauso, que cada vez mais soa falso e forçado.
            Tanto Ronaldinho quanto a Seleção deixaram de protagonizar como artistas da bola pelos campos do mundo, para se tornarem meros empregados do futebol, num tempo onde tudo é comercializável, até mesmo o prazer em jogar futebol. Ronaldinho e a Seleção não parecem jogar mais por prazer, por diversão, por e pela arte, para encantar o mundo, quando muito por resultados. Mas, parecem jogar muito mais por obrigação. Obrigação em cumprir um contrato, obrigação mercadológica de quem vendeu um espetáculo, mas que a cada dia se mostra mais impossibilitado de realizá-lo, sempre postergando-o para a próxima apresentação, a próxima partida numa tentativa vã de que numa próxima a alma, o prazer e o gozo estejam presentes na encenação, no campo. Mercantilizaram-se à medida que se burocratizam cada vez mais. Insosos, insípidos. Aplaudidos apenas por uma mídia - diga-se a GLOBO - conivente e beneficiária com e dos dividendos econômicos que os dois ainda representam e geram.
             Trágica coincidência. Nunca o futebol brasileiro lucrou tanto em termos econômicos, mas também nunca ele tinha sido tão feio, tão pobre, tão burocrático e medíocre. Hoje, somos muito mais o futebol de estrelas extra campo, midiatizadas, produzidas pelo marketing do que propriamente de artistas da bola, que se produzem e se inventam dentro de campo, como um dia foi o Gaúcho. Assim como ele o nosso futebol parou, está em claro declínio, vive um crepúsculo de artistas, de craques, de gênios, de desenhos táticos. Deixou minguar seu potencial para produzir magia, sonhos, arte, antes ilimitado, por um ponhado a mais de tostões. Enfim, em nome tão somente do lucro, da sua transformação em simples mercadoria. Esquecendo-se, com isto, que o valor de troca que têm não deriva apenas da sua crescente mercantilização, mas, sobretudo, do valor simbólico agregado ao longo dos anos sobre seus nomes e daquilo que representam. Valor este que vem gradativamente se esboroando, perdendo seu simbolismo, seu valor de troca e, sobretudo, de mobilização social. A derrota do Santos para o Barcelona, na final do Mundial de Clubes, foi o exemplo mais claro e nítido disto que estou falando.
           Por tudo isto, tanto Ronaldinho quanto a Seleção não tem mais brilho próprio ou não conseguem mais produzir dentro de campo o material capaz de continuar fazendo reluzir suas trajetórias.  O brilho dos dois, hoje, é muito mais um brilho falso, fosco, mareado, produzido de fora, em especial pela mídia nacional. A única a tentar sustentar o insustentável mediante um discurso vazio que nem o mais fanático dos fãs-torcedores acredita mais: o de que o futebol brasileiro ainda é o melhor do mundo e o de que Ronaldinho ainda é um gênio do futebol. A mídia, em especial as Organizações Globo, é a única a sustentar este discurso, não tanto por acreditar nele, mas porque tem nele a salvaguarda de alguns de seus mais caros interesses econômicos e midiáticos. Tanto é que a Seleção Brasileira, hoje, é quase que um produto exclusivo da Globo, que a pretexto blinda o Sr. Teixeira de qualquer denúncia que envolva suas maracutaias e tramoias. Diante disto, tanto a Seleção Brasileira quanto Ronaldinho Gaúcho tem se transformado apenas em produtos da mídia, em mercadorias nas mãos de capitalistas gananciosos e corruptos. Têm deixado de empolgar e mobilizar torcidas e torcedores na mesma proporção que enchem seus bolsos de dinheiro.
         É por tudo isto que acredito que dificilmente veremos ou assistiremos mais a Ronaldinho e a Seleção arrancar aplausos de seus torcedores e dos rivais por conta do espetáculo dado em campo, por conta da obra de arte produzida nas telas das quatro linhas, como no episódio em que Ronaldinho foi aplaudido por uma torcida madridista embasbacada, dentro de sua casa, com a obra do mestre. Dificilmente assistiremos, pelo menos nós próximo anos, a nossa Seleção encantar o mundo com a mais perfeita partida de futebol já jogada por uma seleção em copas do mundo, como na final da Copa de 1970. Pelo andar da carruagem nos resta apenas contemplar, tanto em relação a Ronaldinho quanto a nossa Seleção, as obras primas que um dia produziram e que se encontram cada vez mais distantes de nós no tempo e de uma possível próxima produção. Cada dia mais apenas como obra de museu ou na memória daqueles que os assistiram jogar e presenciaram a produção de suas obras em campo: sem maquiagem, sem flashs, sem edições e marquetagens. Apenas com o talento do artista e o seu material de trabalho: o campo, o par de chuteiras, o uniforme, o seu corpo e a bola.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O problema de nosso tempo: Um problema de cultura, de civilização.

              Realmente acredito muito nos homens. Mas, diante dos acontecimentos que explodem a nossa volta essa crença tem esmaecido um pouco, tenho ficado bastante preocupado com o rumo que as coisas andam tomando. E ao mesmo tempo um sentimento danado de impotência, de não poder fazer muita coisa - a não ser escrever, tentar racionalizar os acontecimentos, buscar saidas e linhas de fuga, sempre procurando praticar o contrário do que ai está posto - diante do que estamos vivendo. Ultimamente uma conciência aguda tem me tomado diante de um futuro que vislumbro não ser tão radiante para nós, nossos amigos, filhos (no meu caso) e familiares. Paradoxalmente, ao mesmo tempo, vislumbro várias saidas, várias possibilidades de mudança de rumo. E ai o que me deixa realmente preocupado, é que são cada vez mais poucas as pessoas que caminham nesta outra ou nestas outras direções. Mas, não posso deixar de acreditar nos homens, sob pena de sucumbir antes do tempo, antes da vida vivida até o seu limite.
          Um limite que parece se mostrar cada vez mais próximo, à medida que nos deparamos diante de vários umbrais de intolerância, de deslegitimação do outro, de extermínios silenciosos e consentidos, de perdas de direitos conquistados por árduas lutas ao longo de séculos a fio, diante do retorno de um conservadorismo religioso que jazia moribundo nos destritos da história, e que vemos ressucitado dia após dia por aqueles que se dizem defensores da democracia do cacetete. Estamos diante da tranformação cada vez mais rápida das relações afetivas e pessoais em relações marcadas pela lógica do mercado, do lucro, da capitalização de ganhos e perdas. Diante de um mundo em que o amor como causa parece destruir e fazer sofrer muito mais que o ódio. Um mundo em que as paixões são cada dia mais individualistas e para a satisfação de prazeres individuais (paixão pelo carro, pelo apartamento novo, pelo cachorro de estimação, pelo dinheiro etc, quase nunca pelo outro ou pelos outros). Um mundo em que a violência tem se tornado a cada dia mais desmedida, fria, calculista, racionalizada, banalizada, sendo praticada a qualquer preço ou a preço nenhum, tão simplesmente pelo sórdido prazer de ferir, de matar, de destruir. Um mundo onde o fazer sexo, o tranzar vem se reduzindo a uma prática cada vez mais banal, para alguns menos importante até do que a roupa que vai vestir ou o equivalente a troca da mesma, ato banal. Um mundo em que os sentimentos mais comezinhos carreiam de forma assustadora em todos os ambitos da sociedade. Um mundo em que palavras como solidariedade, amizade, sociabilidade vem perdendo os seus significados, perdendo a capacidade mobilizadora e de aglutinação social. Sem dúvidas, um futuro sombrio nos cerca, nos espreita. No momento ele ainda não é real, mas se constitui numa ameaçadora virtualidade.
           O que não podemos é permitir que esta virtualidade se torne tão real ao ponto de termos de empunhar armas para derrubar os muros de sentido e significado que ela venha a erguer. Foucault nos ensinou que é nas situações limite que as saidas e as linhas de fuga também aparecem, precisamos ficar atentos e aproveitá-las, desviando o maior número de pessoas possíveis do labirinto de caminho único em que o nosso mundo, a nossa cultura, a nossa civilização está nos enredando, sob pena de capitularmos antes de chegarmos ao limite.

Mais uma vez sobre a violência de nossos dias.

              A cerca de dois ou três dias atrás um acontecimento chocou a sociedade paraibana. O estupro e a morte premeditada de duas jovens e  o estupro de mais outras três numa festa particular na cidade de Queimadas, por parte de jovens aparentemente de classe média, brancos, educados nos melhores colégios e pertencentes aquilo que os colunistas sociais costumam chamar de "sociedade". A consumação do fato - para utilizar uma linguagem policial - se deu de forma fria, premeditada, calculada, sordida, permeada por uma brutalidade e uma animalidade atroz e sem nenhuma motivação aparente, apenas a violência gratuita, pura e simples. Os instintos humanos aflorando da forma mais primitiva e selvagem - para usar alguns termos criados por nosso processo civilizador para nomear aqueles que nele ainda não se inseriram - possível. Mas, será mesmo? será apenas selvageria, barbárie, primitivismo ou será o uso racionlizado de nossas forças, de nosso intelecto para aquilo que há de pior no humano que nos tornamos? Não acredito que estamos nos embrutecendo, nos animalizado e que aqueles jovens sejam o exemplo cabal disso. Mas, antes, creio que eles e suas práticas nefastas são o produto mais bem acabado de nossa sociedade e de nossa cultura, são a expressão máxima de nosso tempo. Tempo este que vem naturalizando a violência e a sexo em todas as suas dimensões e sentidos, sem nenhum constrangimento, sem nenhuma culpa, sem nenhum pudor ou vergonha.
           O problema não é apenas de impunidade, de falta de educação, de carência de leis mais duras ou draconianas, da falta de código normativo que reestabeleça o olho por olho e o dente por dente. Estes acontecimentos não cessarão apenas com a correção ou aplicação de tais medidas. O estabelecimento da pena de morte não diminuirá o acontecimento destes fenômenos, muito pelo contrário, pois a pena de morte punibiliza apenas de forma diferenciada aquilo que já acontece a séculos, mas que não ganhava a dimensão e a publicidade que se observa nos dias que correm. Uma nova punição, mais dura, mais pesada, mais justa na visão de alguns, talvez aumentasse apenas a sensação de justiçamento na sociedade, mas não poria fim ao problema. Ao contrário, criaria outro, talvez mais atroz e mais brutal ainda, em especial na nossa sociedade, permeada que é por gritantes diferenças sociais e constituída por relações de poder e de força estremamente desiguais entre seus grupos constitutivos.
           É notório que o sentimento de indignação, de revolta, de impotência que toma de conta de grande parcela da sociedade diante de acontecimentos como estes. Mas, estes sentimentos não podem servir de esteio para discursos tão perversos quanto as práticas cometidas por aqueles ? - não sei que palavra usar, meu vocabulário não têm palavras para nomeá-los -, não podem servir de pretexto para reinvidicações autoritárias, para a exigência do estabelecimento de um legalismo facista que tem como horizonte o extermínio do outro e muito menos para reproduzir a cultura de nosso tempo, profundamente caracterizada pela banalização e naturalização da violência e do sexo. Nosso maior problema não são de falta de leis ou de punição. Nosso maior problema é de civilização, de cultura. Estamos descambando para o facismo, nas suas expressões mais vís, tanto individuais quanto coletivas, de forma cada ve mais racionalizada e parece que ninguém se dar conta.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Eleições, corrupção e cultura política nacional.

             
           Uma das estratégias preferidas dos políticos brasileiros, sobretudo os de direita, conservadores e reacionários, é se ancorar na muleta do combate a corrupção, principalmente quando lhes faltam o esteio de propostas e projetos sólidos, seja para o país, o estado ou um município no qual concorra a cargo majoritário. Este comportamento é visível, por exemplo, em partidos como o PSDB e o DEM, que na falta de um discurso e de projetos para o país se ancoram na muleta, em grande medida produzida e sustentada pela mídia, do combate a corrupção. Bradam a favor do "ficha limpa", como se esta lei por sí só fosse resolver o problema da corrupção no país, como num passe de mágica. Como é mágico também o interesse súbito - por parte destes mesmos políticos - por tais propostas sempre as vésperas das eleições. Mal disfarçando, com isso, sua torcida escancarada para que um de seus adversários seja pego ou caia na malha não tão fina da justiça brasileira. Torcem como nunca para que o nosso não tão probo STF aprove para anteontem a lei da ficha limpa, porque essa é a única possibilidade que têm para viabilizar suas candidaturas natimortas.
             Essa parece ser a situação de alguns que se dizem candidatos a prefeito na maioria dos municípios de nosso país. Redundantes, tautológicos a propagandear um discurso monocórdico que só diz "ficha limpa", se sustentando apenas na muleta do combate a corrupção, se esquivando assim de discutir propostas e projetos objetivos para os municípios em que disputam eleição. Precisamos ficar atentos a estes expedientes, até porque as eleições estão batendo a nossa porta e até que me provem o contrário, nunca ví político algum, em período eleitoral, se colocar a favor da corrupção e da sua prática, por mais que esta seja uma prática recorrente a formar a subjetividade e a cultural política de quase todo brasileiro, de todas as classes sociais.

Abortamento e discriminalização do aborto.

             Com a nomeação da nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci - uma militante feminista histórica, defensora da descriminalização do aborto e do abordamento como um direito desdobrado do poder da mulher sobre o próprio corpo -, a questão do abortamento e da descriminalização do aborto voltou a pauta da maioria dos meios de comunicação e têm se tornado o centro de alguns debates políticos a nível nacional.
              Desde a campanha presidencial de 2010 que o tema do aborto havia sido silenciado ou colocado à margem por setores da imprensa e pelo governo. No entanto, nos últimos dias ele voltou a tona e mais uma vez, como em 2010, envolto e perpassado por posturas e discursos retrógados, conservadores, moralistas, religiosos, beirando o medievalismo católico e o calvinismo protestante de séculos atrás. Num misto de ignorância e moralismo tacanho, perpassado por interesses ideológicos excusos - veja, por exemplo, o tratamento dispensado por Reinaldo Azevedo ao assunto - alguns tentam confundir abortamento com descriminalização do aborto, numa clara tentativa de confundir a sociedade e colocá-la contrária a discussão do assunto. Pautando a discussão por um discurso moralista, religioso e retrógrado, parte da mídia e grupos de políticos ligados a Igreja Católica e a denominações protestantes tentam desqualificar a discussão e retirá-la do campo onde ela deve realmente está inserida, o campo da saúde pública.
              Em um Estado que se quer laico, esta discussão não pode ser pautada por moralismos religiosos ou colocada simplesmente como uma questão moral-teológica. O Estado têm de enfrentar tal situação e esclarecer a população que descriminalização do aborto não significa abortamento e mesmo que significasse, não compete as religiões arbitrar sobre tais questões em um Estado laico, democrático e de direito. O abortamento é claramente uma questão de saúde pública e discriminalizá-lo não significa acender o sinal verde para que todas as mulheres saiam abortando a torto e a direito. Mas, antes significa regulamentar este procedimento que a despeito da sociedade e do Estado é praticado cotidianamente por mulheres em situação limite, ou até mesmo por aquelas que escolheram interromper uma gravidez por uma escolha pessoal, individual e com a qual vai arcar com as consequências, de diferentes maneiras. O que não pode é o Estado fechar os olhos e deixar que essas mulheres morram como moscas em verdadeiros açougues, porque por falso moralismo ou por um moralismo religioso tacanho e medieval não regulamenta a sua descriminalização. Elas não podem mais ser tratadas como monstros, criminosas. 
            Portanto, urge que o Estado enfrente esta questão como deveria, sob pena de milhares de mulheres continuarem morrendo ao fazerem abortamentos em clínicas clândestinas, sem as mínimas condições de higiene e salubridade. Ou será que estas mulheres não têm também o direito a vida? Será que elas devem ser penalizadas com a própria vida por uma escolha que fizeram e que só diz respeito a vida de cada uma e a relação que matêm com o próprio corpo?

Sobre a violência de nossos dias.

            Não sei se estamos ficando mais violentos, mas certamente a violência contra o outro está se tornando muito mais banal e naturalizada, sendo praticada com uma frieza e sordidez descomunais e com uma constância ou uma visibilidade e publicização muito maior do que em anos atrás. E isto tem se exponenciando de tal maneira neste novo século a ponto de nos deixar perplexos e confusos quanto aos sentimentos que devemos nutrir para com tais práticas e principalmente em relação a seus autores. Barbárie, selvageria, violência, intolerância, desumanidade, crueldade, maldade. Talvez, um pouco de cada uma dessas coisas. Mas, tenho o sentimento de que estas palavras não conseguem mais dizer estes fenômenos que ocorrem no nosso tempo. E quando as palavras começam a se desgastar é sinal de ques tais práticas têm e terão um alcance muito maior do que aqueles que conseguimos supor ou designar com nosso vocabulário carcomido. Sem dúvida, tudo isso é fruto de nossa sociedade, de nossa cultura e de tudo aquilo que ela é capaz de produzir, e neste momento não vejo palavra melhor para descrever nosso horizonte: facismo. Talvez, uma palavra forte demais, mas que parece comportar todas estas práticas, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo, que explodem cotidianamente e numa velocidade cada vez mais curta de uma para outra. Infelizmente, os últimos acontecimentos (cracolândia, Pinheirinho, Estupro coletivo na Paraíba etc.) não serão os últims e nem os derradeiros dos mais violentos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Impressões de um professor/pesquisador de História sobre a Educação brasileira. (Parte I)


Impressões de um professor/pesquisador de História sobre a Educação brasileira. (Parte I)


Wagner Geminiano dos Santos

Resumo: Este ensaio busca pensar aquilo que se convencionou chamar de educação brasileira a partir do estabelecimento de algumas questões que julgo estruturais e que constituem este campo do saber, no cruzamento com outras questões mais conjunturais e pontuais que permeiam e constituem a educação em nosso país. Todas estas questões são tomadas e pensadas aqui a partir das minhas experiências e impressões enquanto docente. É neste sentido que procurei preservar no texto um caráter puramente ensaístico e de experimentação e exercício de pensamento, sem maiores pretensões científicas. Portanto, ao longo de sua construção, dispensei o uso de citações e referências documentais ou bibliográficas. No entanto, isto não impediu que sua escrita estivesse atravessada por inúmeros pensamentos e autores que o leitor mais atento logo identificará. E, por isso mesmo ele não é fruto apenas de meu esforço intelectual individual, mas é resultado da relação com inúmeras vozes e discursos, aos quais busquei deixar no anonimato, na tentativa de construção de uma espécie de memorial daquilo que entendo como sendo a educação brasileira no cruzamento de minha formação como professor, historiador e cidadão.

Palavras-chave: Educação brasileira, universalização, professor, escola, discente.


Gostaria, neste texto, de pensar e discutir alguns dos aspectos que julgo problemáticos naquilo que se sensocomunizou chamar de “Educação brasileira”, em especial no seu nível básico, hoje chamado de Ensino Fundamental. Tentarei fazer isto percorrendo o seguinte caminho: primeiro, abordarei aqueles aspectos mais gerais e estruturantes que formam, a meu ver, a espinha dorsal desta área do saber e das instituições a ela correlatas; em seguida procurarei pensar algumas dimensões mais conjunturais, que dizem respeito ao momento em que estamos vivendo, às práticas políticas, econômicas, sociais e culturais e às políticas públicas para educação atreladas ao processo educacional do país; por fim, de forma mais particular, tentarei pensar este processo a partir do ensino de história e da minha experiência docente em alguns municípios do interior de Pernambuco. Farei este esforço na tentativa de construção de uma espécie de memorial daquilo que entendo como sendo a educação brasileira no cruzamento de minha formação como professor, historiador e cidadão.
Para iniciar esta discussão, quero problematizar um enunciado que reverbera e ressoa praticamente em todo o corpo social de nosso país e que parece contribuir substantivamente para a imagem profundamente negativa que os profissionais da educação têm no Brasil. É o enunciado que coloca o processo educativo como missão, como sacerdócio e o professor como aquele que fez os votos e abraçou a causa – jesuítica, por sinal -, antes de tudo por amor e compromisso de fé do que por qualquer outra coisa – muito menos dinheiro, na forma de bons salários, claro; pecado mortal da profissão. Neste sentido, ao longo dos anos, fomos alçados a condição de mártires, de redentores, de salvadores da pátria e construtores da nação – talvez por isso se explique o sucesso algumas utopias, ou melhor, de alguns discursos idealistas, que mais parecem literatura de autoajuda, vide o sucesso de Augusto Cury entre os educadores, ou as duas coisas ao mesmo tempo, e porque não salvacionistas ainda presentes em nosso meio e a fazer grande sucesso e estardalhaço vendendo livros e mais livros. Este campo do saber talvez seja o único onde este tipo de discurso ainda produz efeitos de verdade sobre os pares, confluindo para uma larga produção científica pautada por estes enunciados.
Este enunciado que diz que o verdadeiro professor, o educador, na acepção ampla da palavra, é aquele que exerce a profissão por amor, por devoção a uma causa, por compromisso a uma missão. Ou seja, o professor antes de ser um profissional, alguém que trabalha para ser reconhecido e valorizado por suas práticas profissionais e intelectuais, seria um altruísta nato, alguém que se doa completamente, de corpo e espírito, a sua missão, pois é nesta que a priori já se encontra o reconhecimento e o valor do que fazem; enfim, o reconhecimento e o valor não estariam no professor e nas suas práticas profissionais cotidianas, mas já estariam definidos a priori na missão que escolheram defender, a princípio, de corpo e alma. Mas alma, espírito e intelecto do que corpo, pois neste discurso o professor parece não ter corpo – portanto, não precisa comer, vestir, se divertir, descansar, neste sentido não necessita de bons salários, de férias, de descanso, podendo trabalhar diuturnamente em sua missão –, quando muito ele aparece apenas como ferramenta para a realização de sua missão; corpo assexuado, como o dos anjos, a proteger a humanidade em nós ou a tentar, cristamente, construir a humanidade em nós. Corpo macerados por uma árdua jornada de trabalho – três expedientes, muitas vezes –, mas sempre resignado, pois expiando e remindo não só os seus pecados, mas, sobretudo, os pecados do mundo da sociedade.
O trabalho do professor, assim como no discurso cristão da culpabilização do homem pela queda, serviria para expiar o pecado da ignorância que deixou o homem em queda, seria o meio para se conseguir alcançar a salvação da nação, do todo social elevando-a aos píncaros da civilização e do progresso social e humano. O Professor, este ser transcendental, um misto de Cristo e anjo de luz decaído dos tempos pós-modernos, assexuado, quase sem corpo, seria o redentor de nossa sociedade, de nosso tempo. Daí o discurso que diz que a educação é o único caminho e solução para a nossa sociedade, discurso este profundamente repetido e alardeado aos quatro ventos em nosso país pelos diferentes setores de nossa sociedade numa reedição pós-moderna da passagem bíblica “eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
Deste enunciado decorre, a meu ver, outro problema gravíssimo de nosso processo educativo, qual seja: o discurso religioso e cristão que se encontra profundamente arraigado e constituindo ainda as bases das práticas educacionais da maioria de nossos professores e professoras – façamos aqui uma distinção de gênero, pois o professor além de ter corpo, ele é investido de um gênero que interfere consideravelmente nas suas práticas educativas e, sobretudo, na educação básica de nosso país, onde a maioria do quadro docente é composta por mulheres, mas trataremos disto mais adiante -, apesar de nosso Estado se dizer laico e propor também uma educação assentada nestas características e preceitos.
Discurso cristão este que norteia em grande medida as concepções salvacionistas que permeiam boa parte das obras que buscam discutir a educação em nosso país. Num Estado que se quer ou que se diz laico e que deveria, portanto, fazer da educação e do processo educativo um meio para realizar este fim, isto parece não acontecer. Pois, cada dia mais as práticas educativas de boa parte dos professores se encontram cristianizadas e prontas a cristianizar, a doutrinar, fazendo do processo educativo algo muito parecido com uma prática de catequização. Isto se explicita, principalmente, quando o docente quer impor certa verdade aos seus “discípulos” e estes o contestam, reagem contra sua assertiva. Diante de tal recusa, a reação da maioria dos docentes caminha, quase sempre, para a pregação culpabilizadora, para o discurso religioso moralizante utilizado como arma educativa e disciplinadora diante do antigo discípulo transformado em herege.
Mas, me tranqüilizaria muito se o efeito deste discurso fosse apenas este – talvez o mais banal deles. No entanto, as coisas tendem a ser muito piores, descambando, na maioria das vezes, para o preconceito, para posturas, conservadoras e facistas de negação do outro. Ao longo da minha carreira docente – que ainda não é longa, diga-se de passagem – já presenciei cenas estarrecedoras, sendo legitimadas e justificadas por este discurso educativo-religioso.
Desde gestores que, para repreenderem seus alunos, diante de supostas atitudes incorretas dos mesmos, se utilizam e tomam o discurso moralista religioso como pedra abalizadora das atitudes dos discentes sejam elas quais forem e que sentido for, proferindo impropérios do tipo: “suas atitudes não fazem parte da criação divina, não faz parte das coisas de Deus, Ele condena tudo isso”, “Deus não criou seu filhos para a prostituição, para a marginalidade, para a homossexualidade, portanto, sejam bons alunos, respeitem o professor para ser alguém na vida, porque Deus condena que quer cair na marginalidade, e ele é nosso Pai salvador”.
Até professores que por puro despreparo e desconhecimento diante de temas candentes de nosso tempo como as drogas, as práticas homossexuais, homoeróticas, homo afetivas, a prostituição e outros mais se ancoram na muleta do moralismo religioso para se esquivarem do debate e se eximirem de tratar de tais assuntos. E quando o fazem, o fazem a partir do ângulo religioso, moralista e cristão, disseminado o preconceito e ódio ao diferente, ao outro. Neste sentido, já presenciei vários colegas professores argumentando que não tratam destes temas com seus alunos porque o consideram não natural, em especial em relação ao homossexualismo, pois o consideram não fazendo parte da criação divina. Já escutei de colegas até que por o considerarem não natural acreditavam que o homossexualismo seria uma doença e que deveria ser encarado como tal, com o objetivo de sanar a epidemia que assola a nossa sociedade nesses dias de pós-modernidade, ou seja, alguns de meus colegas, mesmo no papel de educadores, continuam vendo alguns temas e tratando-os como se estivessem fora da norma, fora da curva; enfim, como uma anormalidade dentro dos desígnios da criação. Pautam-se assim embasados não só por um discurso moralista religioso, mas também retomam um discurso médico já contestado e posto em cheque desde a década de 60 do século passado pela própria ciência médica.
No entanto, este discurso religioso-cristão que se imiscuiu e se insinua nas práticas educativas de boa parte dos docentes em nosso país (re)produz uma série de outros preconceitos e práticas conservadoras dentro de sala de aula, sobretudo em relação a outras religiões e culturas e contra quem as pratica, assim como contra quem não é praticante de nenhuma religião ou que não professe nenhuma fé. Neste sentido, assistimos quase que cotidianamente a justificação e a legitimação das práticas religiosas cristãs e seus dogmas – católicos ou protestantes – como verdadeiros, superiores, em especial em relação às religiões de origem afro.
Isto se torna mais enfático ainda em escolas que têm a disciplina de Religião sendo lecionada. Ao lecionarem esta disciplina a maioria dos professores ensinam muito mais os dogmas e práticas cristãs – católicas e/ou protestante –, fazendo proselitismo religioso – o que é vedado pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) – do que estabelecer uma discussão substancial e profunda sobre a própria idéia de religião, as múltiplas possibilidades de expressão da fé e do crível, a diversidade de possibilidades de abordagens e de visões de mundo propiciadas pelas diversas religiões. Neste sentido, esta disciplina é ensinada de forma a justificar e legitimar uma única religião possível e verdadeira, o Cristianismo, católico ou protestante, tendo em vista que nem os fundamentos teológicos e filosóficos básicos desta religião são discutidos, mas apenas apresentados como verdades absolutas e eternas. A disciplina de religião, onde ela é praticada, não serve para ensinar, mas para doutrinar os alunos nas práticas cristãs, com a escola se colocando desta maneira como uma extensão da Igreja, católica ou protestante, e as aulas aparecendo mais como uma extensão das aulas de catecismo ou das escolas dominicais. Fora disso só existiria erro, heresia, demonização.
Assim, a maioria de nossas escolas e seus docentes fica restrita a visão cristã de religião e ao Cristianismo como única religião praticável dentro daquilo que é aceito como normal, verdadeiro e absoluto. Propagandeada pela maioria dos professores como a única visão e crença possível, afirmando-se sobre as outras religiões a partir da demonização e negação das mesmas, de sua adjetivação como algo demoníaco, inferior, baixo, marginal. Não só estas outras religiões, mas também os seus praticantes e práticas seriam de outra esfera, a esfera do negativo, do mal, do desvio que atingiria aquele não só em espírito, mas no seu caráter, na sua moral, no seu ser. Reproduz-se assim uma cultura de intolerância e preconceito que se acentua ainda mais quando o que está em questão são as religiões e culturas de origem afro – apesar da Lei nº 10.639 que institui o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio com o objetivo de quebrar com estes preconceitos –, por motivos óbvios, aos quais a maiorias de nossas escolas e docentes fazem vista grossa e ouvidos surdos, pouco contribuindo para se romper com o preconceito por contra estas religiões e seus praticantes, reproduzindo-o ao invés de questioná-lo em suas raízes. Quando muito as nossas escolas fazem uma leitura destas religiões e de suas culturas e praticantes que beira o pitoresco, o folclórico, o estandardizado tratando-os como o exótico, o estranho, o fora da norma; o que só contribui para alimentar o preconceito e a exclusão.
Esta imagética que se criou em nosso país sobre os docentes e suas práticas parece ser ainda resquício da própria história da educação no país e de como ela foi praticada e exercida ao longo dos séculos. Entregue desde o início da colonização a Igreja e mais especificamente aos Jesuítas, nosso processo de educação das “massas” esteve, desta forma, quase sempre ligado aos ideais missionários e sacerdotais, de desprendimento das coisas do mundo, ligado ao ideal catequético-civilizador cristão que se impunha a partir do princípio da negação do outro e de suas práticas culturais – o índio, o africano e suas religiões e culturas. Mesmo depois das reformas pombalinas no século XVIII e as tentativas de expulsão dos jesuítas da América Portuguesa e a ascensão do Estado como garantidor de uma educação laica, o nosso processo educacional nunca se encontrou de um todo dissociado das práticas cristãs, pelo contrário, varou os séculos atravessado pelas mesmas, constituindo a educação brasileira claramente numa experiência fundada e pautada por práticas cristãs ortodoxas e conservadoras.
Tendências educacionais como a Escola Nova ao tentar se estabelecerem em nosso país tiveram de fazer este enfrentamento, ainda no início do século XX, às práticas educacionais de cunho cristão, não só no ensino, mas também na própria estrutura e concepção de educação no país. Enfrentamento este que ainda não conseguiu por fim a estas práticas, mas que vem convivendo com elas até nossos dias, mesmo depois do processo de redemocratização do país e a laicização do Estado brasileiro sob um viés constitucional e cidadão, outorgado pela Constituição de 1988. Mesmo assim, aquelas práticas continuam profundamente arraigadas no cotidiano escolar e atreladas às práticas docentes de boa parte de nossos professores, se constituindo, assim, como um sério problema de nosso sistema educacional que precisa ser enfrentado urgentemente, mas que infelizmente pouco se fala e quase ninguém se pronuncia ou se posiciona a respeito.
Um segundo aspecto do processo educacional brasileiro que precisa ser urgentemente considerado e pensado e que também pouco se faz ou se fala a respeito, é o processo de universalização do ensino no país, como ele foi iniciado, em que moldes e como ele vem sendo levado a efeito. Processo este iniciado do dia para a noite e sem considerar o contexto histórico, social, cultural, político e econômico de nosso país e que, por estes e outros motivos – que passarei a elencar de agora por diante – se constitui num dos maiores entraves para construir uma educação de qualidade no Brasil.
O nosso processo de universalização do ensino – fundamental e médio – é bastante tardio e ainda não se realizou por completo, principalmente em relação àquilo que se chama de ensino médio. No entanto, ele começou a ser levado a efeito nos últimos anos do período da Ditadura Militar e buscou consolidar-se a partir do processo de redemocratização do país já na década de 90 do século passado. Contudo, isto foi feito a toque de caixa, tentando romper com o atraso e com um processo secular de exclusão que caracterizavam nossa educação. Processo este feito quase sempre a partir de modelos importados dos EUA e da Europa e que foram transplantados para a nossa realidade sem ao menos se considerar nossas particularidades históricas, sociais, culturais, políticas e econômicas.
Desconsiderou-se completamente, por exemplo, o fato de que vinhamos de um processo educacional excludente, fundado numa educação de cunho religioso, cristão e autoritário e que se fazia direcionada quando muito às classes médias e as elites do país. O nosso processo civilizador, para utilizar uma expressão clara a Norbet Elias, quando muito atingia as nossas classes médias, civilizadas ainda muito mais dentro de ideias conservadores cristãos e católicos do que propriamente nos moldes laicos, burgueses e capitalistas que dispõe a ideia de meritocracia, competitividade e individualismo como pedras balizadoras e princípios básicos de uma educação laica.
Neste sentido, até a década de 70 e 80 do século passado, a educação, fosse ela pública ou privada, se constituía no direito de uma minoria. Onde, diante disso e apesar da parca estrutura, a superlotação das salas de aula não se constituía em um problema grave da educação do país, naquele período. Assim como o que chamamos hoje de indisciplina não se apresentava como percalço para docentes e gestores. Pois, a educação se fazia para uma parcela da sociedade que a via e percebia como um dos meios para manter, senão superdimensionar e consolidar, sua posição dentro desta sociedade. A educação era significada como elemento definidor e legitimador do status quo, sobretudo ao longo do período da Ditadura Militar. E em grande medida era assim que ela era vista e significada por aqueles que frequentavam os bancos escolares. Pois, uma educação pensada para reproduzir o modus vivendi e o habitus elitista e classe média em nosso país. Assim, o processo educacional brasileiro se conformava e se constituía correlato ao processo disciplinar e civilizador desta parcela de nossa sociedade e aos seus anseios políticos, sociais, econômicos e culturais.
Mas, este cenário se altera profundamente com o processo de universalização do ensino iniciado entre finais da década de 1970 e a década de 1980. A medida que praticamente do dia para a noite são jogados dentro das poucas escolas públicas construídas no país milhares e milhares de crianças e jovens, sem que ante tenha havido qualquer preparação por parte das entidades federativas (União, estados e municípios) para acolher tal demanda e a diversidade que ela ensejava em uma infraestrutura já deficitária. Era necessário ter havido a construção de novas escolas – mas não só isso –, a distribuição de livros e materiais didáticos, a contratação imediata de novos professores, assim como a capacitação dos mesmos e a qualificação dos que já faziam parte do quadro para atender este novo e variado público. Nada disso foi feito ou considerado a tempo. Contudo, a cada ano a demanda só fazia crescer e se multiplicar.
Decorrente disto, não houve um investimento imediato por parte do Estado na formação dos professores para que eles fossem “adaptados” a nova realidade das salas de aula criada por esta demanda crescente que bate a todo dia a porta das escolas em todo o país. Pessoas de classes sociais distintas daquelas a que as escolas públicas estavam acostumadas a atender, mas que se vê obrigada a fazer a inclusão, juntando-os, misturando-os com os antigos alunos classe média e das elites locais, fomentando na inclusão uma exclusão social cada vez mais gritante, exacerbando as distinções e diferenças sociais entre o filho do pobre e o estudante riquinho de classe média ou filho do mandatário ou do grande comerciante local. Incluir para excluir, para marcar a diferença – e isto se explicita em comportamentos que vão se tornando quase que naturais, como a preferência dos professores pelos filhos geralmente branquinhos, limpinhos, “educados” das famílias de classe média ou das elites em detrimento do olhar torto, reprovador diante do mestiço, do negrinho filho do pobre, geralmente empregado daquelas famílias que agora tinham de conviver no mesmo espaço e que ao menos legal e teoricamente tinham de ser acolhidos e tratados com isonomia.
É sob este signo que se inicia o processo de universalização do ensino no Brasil. Milhares de pessoas, passos, pernas e corpos diferentes, diversos, divergentes se dirigindo, dia após dia em maior número, às escolas. Fruto de realidades diversas, variadas, marginais com as quais a maioria dos professores e a própria escola não estava habituada ou acostumada a lidar. Como esta escola se torna um ambiente difícil, excludente para grande parte deste novo público também pouco acostumado com ela, com suas regras, com seu modus operandi, e isto se traduziu por muito tempo nos elevados índices de evasão, de desistência deste público em continuar num espaço em que eles pouco tinham espaço, a não ser como corpos deslocados.
Corpos estes constituídos em um modus vivendi diferente e diametralmente oposto àquele que a maioria dos professores estava acostumada a lidar. Corpos rebeldes, não educados, não civilizados no modo de vida burguês, capitalista ou até mesmo cristão-conservador, vindos de um caldo cultural ante e anti capitalista, como costuma dizer o antropólogo José Carlos Rodrigues. Corpos com os quais a maioria dos professores não sabe como trabalhar, não sabem o que fazer ou como proceder. Professores que até então eram pensados assexuadamente – as “tias”, estes seres assexuados, que nem famílias conseguiram constituir, a não ser àquela que abraçaram na sua missão, imagem esta a muito cristalizada sobre as professoras, tendo em vista que esta era até bem pouco tempo atrás uma profissão eminentemente feminina, em especial nas séries iniciais e no que hoje se chama de ensino fundamental – como pessoas compostas apenas de intelecto, se vêm diante de uma multiplicidade de corpos com a sexualidade a flor da pele, que se expressam pela violência dos gestos e das palavras. Fruto de uma visão de mundo, de uma cultura e de relações sociais forjadas na base da violência, da sexualidade aflorada e explicitada cotidianamente sem grandes pudores.
Afinal, os corpos que todos os dias adentram as salas de aula de nosso país, em especial das escolas públicas, forma talhados e trabalhados num espaço social onde a distinção do público e do privado ainda não se fizeram sentir como nos espaços de classe média e de elite. Espaços domésticos que condensam, muitas vezes, no mesmo ambiente o quarto, a sala, a cozinha, o banheiro, expressando desta forma uma medievalidade dos costumes ainda bastante presente nos dias atuais. Os alunos que batem a porta de nossas escolas estão, quase todos eles, acostumados a ver e a presenciar a violência entre os pais ou entre os parceiros de seus pais ou mães. Acostumados desde cedo a verem as práticas sexuais de seus pais ou responsáveis de forma explicita, escancarada, dada a falta de privacidade na maioria das moradias em que os mesmos habitam. Quando não com os pais, com os animais de estimação ou de criação, cães, gatos, porcos, caprinos, equinos, bovinos, asininos, com que muitas vezes se iniciam sexualmente, em especial os homens.
Conhecedores desde cedo das mazelas da violência física e psicológica, do encontro precoce com o sexo, com as drogas, com a violência doméstica. Marcados perla necessidade e pela busca diária por sobrevivência num mundo onde palavras como educação, meritocracia, civilização pouco parecem fazer sentido aos seus ouvidos. São geralmente estes corpos assim talhados que começamos a ter dentro de nossas escolas a partir do início do processo de universalização do ensino no país.
E como a maioria dos professores, senão todos, estava – e ainda estão – despreparados para “educa-los”, “civiliza-los” –  dificuldade esta que atribuo à rebeldia, à resistência a um dado modelo civilizador, a um dado habitus que querem lhe impor numa estratégia aculturante – tomam esta rebeldia, esta revolta como indício de uma indisciplina profunda e incorrigível, ou melhor, de uma falta de disciplina, de educação. E por isto passam a ser vistos quase como não humanos, tratados quase como animais, como bestas humanas destituídas de sua alma, de sua essência, daquilo que os tornariam humanos. Enfim, a escola e boa parte dos professores parecem querer negar e lhes extirpar àquilo que é mais humano naqueles corpos, como diria Nietzsche, o que lhes é humano, demasiado humano: a violência, o sexo, o desejo, a revolta, a resistência. Com esta postura, escola e professores, buscam, antes de tudo, se afirmarem como melhores, como superiores, pois supostamente pautados por valores civilizatórios, portanto ocupando outro estágio de, mais avançado, mais evoluído, no processo civilizador. Dai poderem justificar a sua boa consciência. A boa consciência daqueles que tentaram humanizar e civilizar aqueles que se recusam a sê-lo.
Diante de uma consciência tranquila, embalada pelo argumento de quem tudo fez e faz, diante de todas as dificuldades possíveis, para educar as “massas” incultas, tanto a Escola quanto a maioria dos profissionais a ela ligado pouco para ou nunca param para pensar e problematizar que o mundo que eles oferecem a este público é um mundo insignificante e sem sentido, destituído de qualquer capacidade mobilizadora para uma maioria que só conhece como realidade imediata a violência, a privação, os prazeres do sexo, o delírio oblíquo das drogas, a libertinagem de uma vida sem fronteiras, sem limites e sem um conjunto de regras muito claras, a não serem aquelas determinadas pela necessidade da sobrevivência diária, cotidiana. Justamente porque são vidas que vivem nas fronteiras, no limite da vida e da morte, da sobrevivência, da privação, da marginalidade, da exclusão. Daí sua rebeldia, sua revolta, sua “indisciplina”.
Indisciplina. É por este ângulo que a Escola e boa parte dos docentes, senão todos, enxerga e nomeiam o comportamento deste novo público que acorre todos os dias à sua porta. Pois, tomam o seu mundo, os seus critérios como abalizadores do outro. Neste sentido, a Escola os enxergam e os nomeiam pelo negativo, pela falta, como corpos e pessoas que precisam ser educados, disciplinados, civilizados, pois, supostamente, estas características lhes faltam. São pessoas mal educadas, indisciplinadas, rudes, ignorantes, torpes, fora da norma. Talvez, por isto, muitos professores, em especial àqueles a mais tempo na profissão e alguns novatos também, sejam saudosos dos métodos tradicionais de ensino, ou melhor, dos castigos e da palmatória como meio de educar e disciplinar o outro.
Não enxergam que se possível fosse retornar àqueles métodos, eles não funcionariam, não surtiriam os mesmos efeitos de poder e de verdade de outrora, pois o público e os corpos a que eles se destinariam são outros. Como dito anteriormente, temos agora em nossas escolas uma maioria de corpos talhados na e pela violência física e simbólica do dia-a-dia, e que, por isso mesmo, são rebeldes, resistentes ao castigo, ao disciplinamento, a punição. São corpos encarapaçados pelo tempo, pela constância da violência de onde nasceram e estão a crescer e a se constituir enquanto humanos. São, portanto, corpos bastante diferentes dos corpos classe média com os quais a maioria das escolas privadas de nosso tempo costumam trabalhar e que já fora num passado não muito distante o principal e majoritário público das escolas públicas.
Estes corpos classe média, são corpos com outros habitus, vindos de um mundo e constituídos por uma visão do mesmo, totalmente distinta dos deste novo público de massas. Talhados geralmente por uma forte moralidade religiosa cristã desde a infância; crescendo já marcados pelo signo do afastamento entre os corpos, contornados por reservas morais, físicas e psicológicas tanto em relação ao sexo quanto em relação à violência. Corpos para os quais o castigo e a punição funcionam como humilhação, como signo do fracasso em não conseguir governar os “excessos” do próprio corpo, enfim, como mecanismo disciplinador e contingencioso de práticas tidas como anormais utilizadas pelos pares quando o próprio indivíduo não consegue, por sí só, se governar. Significações estas que não ressoam sobre e entre este novo grupo, acostumado no seu cotidiano a lidar de forma bastante naturalizada com os castigos e as punições, que antes de serem vistos como tais, como práticas humilhantes, corretivas, disciplinares aparecem muito mais como práticas normais, naturais, parte integrante de suas vidas e realidades cotidianas.
Basta observar como estes corpos se comunicam, como tratam uns aos outros. Com tapas, socos, chutes, ponta pés, empurrões etc. E quando repreendidos por algum professor desavisado, saem com a máxima: “é só brincadeira, professor”; para perplexidade da maioria dos docentes. O paradoxo está justamente no fato de que os docentes, ou a maioria deles, ainda não se deu conta que a violência é uma linguagem, sobretudo, uma linguagem que está inscrita e inscreve a subjetividade destes e para estes corpos, ou melhor, a violência é a sua linguagem, a mais significante, a mais explicita e utilizada para sua expressão. Pois, foi nesta linguagem que eles foram talhados e educados e é por meio dela que se expressam de forma mais emblemática: nos gestos, nas relações e até mesmo nas palavras que usam para significa-la, todas elas carregadas de violência, de erotismo, de pulsões desejantes.
E diante desta linguagem a Escola enquanto instituição encontra-se totalmente perdida, desorientada e sem rumo. Isto porque o modelo que temos de escola ainda é aquele pensado pela modernidade e voltado para atender as necessidades e demandas daquilo que Michel Foucault chamou de sociedade disciplinar. Uma escola que ainda tem como modelo o exército e a prisão, na sua posição arquitetônica, e a fábrica e o hospital, no seu modelo gerencial. Este modelo já não atende mais as demandas de nosso tempo, de uma sociedade pós-disciplinar, pós-industrial, pós-moderna para muitos.
Temos ainda uma escola pensada arquitetonicamente como prisão, com portões, grades, cadeados, composta de salas quadriculares dando, geralmente, ou para um corredor ou para um grande salão central de onde se pode, por seus corredores, passar em revista todas as salas, de onde todas elas podem ser observadas ao mesmo tempo. Uma escola ainda pensada como fábrica, com horários a serem rigidamente cumpridos, regularmente observados ao longo de um árduo ano de trabalho – a educação dos bancos escolares é apresentada com a mesma obrigatoriedade do trabalho – com feriados, folgas, recessos e férias predeterminados por gestores, que mais parecem patrões – dada a cobrança por resultados, metas, objetivos, etc. –, com toques de sirene que determinam o horário de entrar e sair, de recrear, de ter o intervalo antes da volta do trabalho – afinal, o estudante também é visto como um laborador intelectual em desenvolvimento.
Uma escola que tem de seguir todo um planejamento gerencial, imposto de cima para baixo, segundo uma hierarquia previamente definida. Uma escola que é regida como hospital a partir da prática da catalogação daqueles que fazem parte do seu corpo, da sua separação, da sua seriação e segmentação pelo mecanismo da ficha, das anotações, pelo exame contínuo e regular das atividades docentes. Uma escola ainda pensada como caserna, como exército, com seus alunos rigidamente sentados, enfileirados lado a lado, do menor para o maior, por horas a fio, diante da lousa e do mestre.
É este tipo de funcionamento de nossas escolas que encontra uma resistência tamanha nos nossos dias. Este é cada vez mais um modelo falido, que a cada dia só faz comprovar sua falência diante da resistência e inquietude dos corpos que se negam a serem disciplinados e esquadrinhados dentro dos muros desta prisão-escola que mais parece um Frankenstein paralítico, postado diante de nosso tempo e das práticas sociais, culturais e políticas dele constitutivos, murmurando palavras sem sentido.
São escolas inadequadas do ponto de vista de sua estrutura física, que não oferecem salas de aula suficientes e adequadas para atender a demanda deste novo público e para estes corpos outros. Escola que assim como os nossos presídios encontram-se abarrotadas, superlotadas aumentando ainda mais o processo de produção da “delinquência”, da “indisciplina” ou aquelas práticas que só conseguimos nomear com estes termos, por até mesmo no campo da linguagem ainda estarmos limitados por uma conceituação e um vocabulário educacional, sobretudo no cotidiano escolar, que há muito não consegue mais ver e dizer o nosso tempo. Um léxico de milhares de expressões, reproduzido e multiplicado aos quatro ventos, mas que nada diz sobre nossa condição, que não a significa mais, que parece expressar tão somente o silêncio e a impotência de nossas palavras e a surdez de nossos ouvidos diante de falas, práticas e ruídos que ecoam de dentro das salas de aula e que a Escola ainda fundada em linguagem moribunda não consegue sequer escutar, quanto mais compreender e dialogar com ela. Tem sobre este público e seu murmúrio apenas uma linguagem e um discurso insignificante que a cada dia que passa vai ficando mais mudo, oblíquo, afônico.
Temos ainda uma instituição escolar fundada em práticas e procedimentos disciplinares que só constituem e enquadram aquilo que está na norma ou que é visto enquanto tal. Uma Escola, em sua maior parte, incapaz de lidar com o diferente e a diferença que a todo dia bate sua porta. Incapaz de compreender a diversidade imanente ao seu público, muitas vezes pensado por ela como homogêneo. Escola que, depois de iniciado o processo de universalização do ensino, se quer inclusiva, mas que cada vez mais opera por exclusão. Como diz Alfredo Veiga-Neto, é uma escola que inclui para excluir, que inclui para marcar claramente os lugares do normal e do anormal, do educado e do não educado, do incluído por ser igual e do excluído por sua irredutível diferença. Uma escola que ainda trabalha para reduzir homogeneizar comportamentos, para educar mentes e corpos dentro de um modelo civilizador pensado como único e verdadeiro, no qual a diferença só encontra sentido como exceção e confirmação a regra civilizatória e disciplinar. Como elemento justificador e legitimador deste processo educacional visto e imposto como necessário para a constituição da ordem, do progresso, do desenvolvimento do indivíduo em particular e da sociedade no geral. Indivíduo quase sempre pensado como peça do social, que deve ter as arestas de suas diferenças aparadas para se encaixar harmoniosamente no todo do corpo social.
Uma escola totalmente despreparada para os conflitos e tensões que são inerentes ao corpo social. Que não enxerga outra saída para ele que não seja a punição, a interdição. Isto porque se encontra cada vez mais isolada do corpo social. Isolamento político, social, cultural. Sua voz, seu discurso não reverberam mais na sociedade, não produz mais os efeitos de verdade que a modernidade requeria da mesma. Isto parece ocorrer em grande medida porque modernamente a Escola ainda se pensa como lugar privilegiado de reprodução e circulação do saber em nossa sociedade. Desconhecendo ou tornando-se indiferentes aos inúmeros outros lugares de produção e circulação do sabe em nosso tempo. Como, por exemplo, os conglomerados midiáticos e as diferentes mídias operadas por eles (TV, jornais, jogos eletrônicos e, sobretudo, a internet), a publicidade, o marketing, as religiões e as igrejas, os círculos de amizade, a comunidade, a rua etc. Lugares nos quais o saber é não só aprendido, reproduzido, mas, sobretudo, construído, praticado, experimentado diferentemente do que ocorre na maioria das escolas de nosso país, onde o saber é muito mais reproduzido do que socialmente construído em meio às demandas culturais, políticas e econômicas do lugar onde a mesma está inserida e onde seu público habita, mora, vive.
Uma escola que desconhece quase que por completo a comunidade em que está inserida e que quando a conhece pouco faz para entrar em contato com ela. Se resguardando muitas vezes no pseudo argumento e na falácia de que a mesma está e sempre esteve de portas abertas para a comunidade e que esta é quem não procura àquela. Quando muito a Escola entra em contato com a comunidade nos encontros de pais e mestres e nos plantões pedagógicos, que funcionam muito mais como instrumentos de desencargo de consciência da própria Escola, para ela poder dizer tranquilamente “fiz minha parte”, do que como uma prática afetiva para estabelecer um contato mais profícuo e duradouro com a comunidade.
Encontros estes, quase todos eles, esvaziados pelos pais e pelos próprios alunos que observam nestes momentos apenas eventos nos quais os professores e a equipe gestora encontram para mais uma vez reprovar o comportamento dos seus filhos e, por consequência, a sua atuação enquanto pais – pais e mães que o são a partir de outros modelos, de outros modus vivendi – ou responsáveis por aqueles. Momentos em que a Escola faz a sua sessão de terapia e desencargo de consciência procurando afirmar para si mesma que está a fazer alguma coisa, que está cumprindo com o seu papel na tentativa de educar os filhos dos outros de e para a nossa sociedade.
A Escola enquanto instituição precisa não só estar com as portas abertas à espera da comunidade, mas precisa antes de tudo começar a se relacionar com ela, se inserir em seu meio para conhecer as suas demandas, os seus anseios, as suas necessidades. Para entender a sua linguagem, que parece desconhecer por completo. A Escola precisa parar de fazer de conta e reconhecer sua atual impotência e inoperância diante da comunidade em partícula e da sociedade no geral. É preciso que ela saia de dentro de seus muros e vá conhecer a sociedade e a comunidade em que está inserida. Mas que vá desarmada, sem se o direito daquele que detêm o conhecimento autorizado e, portanto, que se insinua como superior diante do mundo e das coisas, diante do outro. A escola tem de perceber e, sobretudo, admitir que não conhece a comunidade e que urge conhece-la para saber de sua demandas, de sua necessidades, para a partir daí traçar estratégias para uma relação mais próxima, menos impositiva e mais democrática e multifacetada. Além do mais, a Escola precisa se fazer reconhecer, construir para si novos significados, o que não pode mais fazer sozinha ou apenas a partir de instancias superiores; mas, sim em relação com a sociedade na qual se insere. A Escola precisa ser investida de novos significados e sentidos construídos em conjunto e partilhados por ela e pela comunidade em particular e pela sociedade em geral.
Mais do que nunca parece necessário construir uma Escola significante socialmente. Porque a que temos hoje está vazia de sentido e não cumpre com o processo de universalização a que se destina e muito menos com o projeto de educação a que se arvorou desde o início da modernidade. E para tanto é preciso que a Escola entenda de uma vez por todas que ela não é mais o locus privilegiado da sensocomunização do saber em nossa sociedade. A nossa sociedade, hoje, independe da Escola para conhecer. E isto explicita claramente o esvaziamento de sentido do referencial significante sobre o qual ela esteve pautada. Se a sociedade não precisa mais da escola para conhecer, esta perde totalmente o seu sentido e a função social construída para ela ao longo da modernidade. Ainda por cima, o conhecimento que ela oferece parte em grande medida de um ideal meritocrático que só faz plenamente sentido dentro do mundo pequeno burguês das classes médias urbanas. Ou seja, até mesmo este último bastião de significado ao qual a Escola ainda busca se apegar não ressoa mais entre o principal público que ela atende atualmente – em especial a escola pública – que são as classes populares, os estratos mais humildes de nossa sociedade. No entanto, mesmo diante deste quadro, ela procura se manter enquanto instituição à medida que se pauta na legitimidade de fazer circular um saber institucionalizado e autorizado, por mais que necessário e indispensável ao mundo pequeno burguês de nossas classes médias.
Para a maioria do atual público que frequenta os bancos escolares, em especial de nossas escolas públicas, tal saber oficial, meritocrático parece não constituir sentido prático ou teórico para às suas vidas, para o seu cotidiano. Este público ainda frequenta os bancos escolares muito mais por questões outras. Na maioria de nossas escolas públicas de nosso país isto parece acontecer muito mais por conta que a Escola passou a representar a sobrevivência, literalmente falando, para boa parcela deste público, carente das mínimas condições básicas de sobrevivência no seu dia-a-dia, sejam aqueles que frequentam diretamente à escola, os alunos, seja aqueles que são seus responsáveis, os pais e familiares, para quem a escola parece representar minimamente a segurança alimentar se seus filhos, pelo menos no turno em que eles estudam.
Ou seja, boa parte deste público frequenta as escolas de nosso país, primeiro porque o Bolsa Família – um dos principais programas assistenciais e de distribuição de renda do Governo Federal – está, a princípio, atrelado a frequência dos alunos à escola. Portanto, a ida dos filhos à escola implica diretamente no recebimento deste benefício, por mais que o controle de tal frequência não seja tão rígido quanto deveria ser, mas ao menos garante a permanência de boa parte dos alunos nas escolas, assim como a necessidade regular de suas matrículas ano a ano, sob pena do benefício ser suspenso. Como boa parte das famílias humildes do país tem no Bolsa Família um fundamental complemento de sua renda mensal, senão toda ela em alguns casos, a ida para a escola de filhos, netos, sobrinhos etc. torna-se quase que obrigatória, pois implica diretamente na sobrevivência diária dessas famílias.
Além disto, outros programas federais como o PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – foram atrelados e condicionados a permanência e frequentação deste público de crianças e adolescentes à escola, em especial a partir da segunda metade da década de 1990. Se formos fazer um estudo comparativo do período anterior a estes projeto com o período que sucede sua implantação, veremos como os índices de evasão e desistência vêm caindo gradativamente, ano após ano. Mas, menos por conta de um crescente entendimento da importância por e para estas pessoas a quem tais programas se destinas, mas mais pelas obrigações que eles implicam e a necessidade que geram. Pois, ao que me parece, antes deles a maioria dos pais e responsáveis preferiam deixar seus filhos e tutelados em casa, ajudando nas atividades laborativas de sua sobrevivência cotidiana, do que manda-los para a escola.
Segundo, a frequência e a frequentação dos mesmos se dão também por conta da própria merenda oferecida nas escolas, que em grande medida se apresenta como um complemento das parcas refeições diárias que estas pessoas têm acesso. Mais uma vez, uma questão de sobrevivência, de pragmatismo. Terceiro, atrelado a estes dois motivos anteriores, parece se encontrar o fato de que a maioria dos pais e responsáveis enxergam na escola uma possibilidade e um lugar onde seus filhos irão encontrar aquilo que eles não conseguem fornecer e encontrar em casa: comida, alimentação, enfim, uma relativa segurança em meio ao “caos” em que vivem. Quarto, o interesse primeiro da maioria dos alunos em frequentar a escola parece estar no fato de que neste espaço encontram um ambiente propício para o divertimento, para a construção de pertencimentos que eles próprios constituem as expensas das regras de convivência estabelecidas pela instituição. Neste sentido, a escola é vista muito mais como um lugar aonde se vai para encontrar os amigos, os colegas: para brincar, se descontrair, se divertir sem ser interrompido pela necessidade do trabalho cotidiano junto aos pais para o sustento da casa e da família. A escola se torna um espaço privilegiado também para o aprendizado do namoro, da azaração, da iniciação sexual, para por em prática aquilo que lhe é explicitado naturalmente no seu dia-a-dia.
Quinto, por a escola se pensar como família ou como uma extensão da família, nuclear e burguesa, a maioria dos pais a toma não como escola, mas como a própria família que deve não só contribuir para formar o cidadão, mas também arcar com as demais premissas e prerrogativas do ideal de família nuclear burguesa: cuidadora, mantenedora, educadora, acolhedora. E isto se agrava sobremaneira no nosso tempo, onde o próprio conceito de família nuclear e burguesa não diz mais quase nada sobre nossa realidade, sobretudo para este público que frequenta as escolas públicas. Público para o qual o conceito de família é totalmente ou são totalmente outros, quase tão múltiplos quanto o número de alunos que se dirigem a escola.
Famílias constituídas, muitas vezes, apenas pela mãe ou pela avó ou a tia ou o parente distante. Mães que não vivem mais com os pais biológicos de seus filhos ou que se quer os conhecem, mas que agora tem um padrasto ou vice-e-versa. Ou a mãe que desistiu de apanhar dos muitos homens que passou por sua vida e agora vive uma relação homo afetiva com parceira fixa ou relações homoeróticas com parceiras variadas. Ou o pai que mora com a mulher “oficial” e a amante dentro da mesma casa, juntando também os filhos de ambas. Famílias múltiplas, enfim. E diante delas a Escola encontra-se sem rumo, sem prumo, nomeando-as com o único vocabulário que lhe resta e sabe manejar com precisão: famílias desestruturadas, anômalas, anormais, pois nenhuma se encaixa no seu modelo de família, no seu ideal burguês de família nuclear.
Até mesmo os professores, mais próximos desta realidade, se tornam impotentes diante desta realidade, pois frutos de outra geração na qual a autoridade do pai ainda se fazia sentir, mas já em transição para estes novos tempos se sentem perdidos entre um tempo e outro, entre a compreensão e a recusa, entre a condescendência e a punição, entre o agir e o omitir-se. Paradoxo da profissão. Na falta do que fazer, continuar fazendo o mesmo, ou seja, nada.
O despreparo ou o vazio da Escola diante de nosso tempo é tão patente que ela pouco sabe o que fazer diante o avanço das novas tecnologias da informação, da comunicação e da eletrônica. Equipamentos cada vez mais divulgados, difundidos e utilizados pelos alunos, mas que a Escola não sabe não sabe como aproveitar todo o seu potencial para a produção e circulação de conhecimento. E como não sabe o que fazer, proíbe. Proíbe ou tentam proibir o uso de celulares, aparelhos eletrônicos e congêneres no momento das aulas, desperdiçando assim o potencial e as possibilidades abertas por estas tecnologias para a aprendizagem e a produção do conhecimento.
A escola não consegue compreender também aquilo que Michel Mafesoli chama de processo de tribalização da sociedade, no qual os elementos de identificação societais – modo de vestir, locais de frequentação, gosto musical, artistas e esportes preferidos etc. – passam a definir as relações grupais, constituindo tribos que se relacionam muito mais pela sinergia dos gostos, dos gestos, atitudes e desejos semelhantes do que por uma clara distinção social marcada por critérios econômicos ou puramente classistas. Assim, o uso do boné, de determinadas vestimentas, como shorts curtos, blusas coladas se tornam símbolos de identificação e pertencimento a um grupo, a uma tribo. Assim como aquilo que se escuta, que se faz e que se fala, ou seja, as próprias atitudes e gestos definem esta pertença a um grupo – periguetes, roqueiros, rappers, skatistas, pagodeiros, boizinhos (as), surfistas, swingueiros, emos, punks, góticos e inúmeros outros que surgem a cada dia – ou a alguns grupos ao mesmo tempo. Tribos estas que vem se multiplicando ao sabor dos ventos e na velocidade dos acontecimentos que caracterizam nosso tempo.
Diante desta diversidade de tribos, nossas escolas ainda trabalham pautadas pela homogeneização pelo uniforme, que tenta, em vão, substituir as identidades móveis, com as quais não sabe lidar, dialogar, pela identidade fixa do estudante fardado, numa tentativa de reduzir o múltiplo e o diverso ao único, ao mesmo. Reduzindo a diferença à identidade; identidade esta que não foi construída numa relação de partilhamento simbólico, de sentimentos de pertença e identificação, mas impostas de cima para baixo, como resultado de uma relação de dominação e sua aculturação por aqueles que frequentam os bancos escolares.
Assim, quando a escola diz que o aluno não pode usar boné, que não pode usar a bermuda ou a blusa que usa cotidianamente é muito menos uma regra que se impõe do que a quebra, muitas vezes dolorosa, com o processo de construção das identidades sociais destes alunos. Agravando e tornando, desta maneira, muito mais confuso e conflituoso o processo de construção das identidades sociais destes sujeitos. Alimentando, assim, sua rebeldia, sua revolta, sua “indisciplina” diante da Escola e promovendo ainda mais a antipatia destes sujeitos por esta instituição que passa a significar para eles muito mais um espaço de cerceamento, do tolhimento de suas invenções enquanto sujeitos sociais, do que uma possibilitadora deste processo.